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RESENHA: “Antropoceno”, John Green e a estranha inquietação de ser

Lemos o novo livro do autor de “A Culpa é das Estrelas” e te levamos nessa viagem romântica pela história da Terra

O Antropoceno, John Green e a estranha inquietação de ser
O Antropoceno, John Green e a estranha inquietação de ser. (Divulgação) (Getty Images)

Por Amanda Oestreich

Se você pudesse avaliar cada experiência da sua vida, quantas estrelas, de zero à cinco, você daria àquele pôr do sol que viu na praia ao lado dos seus amigos? E àquele lanche frio que você comprou logo depois do show do seu artista favorito? É assim que o autor comanda “Antropoceno: Notas Sobre a Vida na Terra”*, seu mais novo livro, que chegou ainda em setembro pelo Brasil. Para ele, ursinhos de pelúcia valem apenas duas estrelas e meia, enquanto a internet luta por três e o jogo “Super Mario Kart” se delicia com quatro.

Não se engane, mencionei John Green, rei do best-sellers que tanto amamos, mas não estou falando de um romance clichê. Na verdade, falando de “Antropoceno” estamos falando de um romance, mas de um estilo um pouco diferente do que estamos acostumados. Um romance do autor com a vida. O livro chega para marcar a primeira obra de não-ficção de John Green, tratando-se de uma “quase autobiografia” — dele mesmo e do Planeta Terra.

Sabemos que o termo “não-ficção” pode ser assustador para muitos, mas “Antropoceno” é tudo menos isso. Afinal, o autor sabe quem é seu público. Ele tem consciência de que quem conhece “o escritor John Green” são aqueles mesmos adolescentes de 2012 que se acabaram de chorar com o fim de “A Culpa é das Estrelas” e estavam aguardando ansiosamente pela adaptação de “Quem é Você, Alasca?” — eles que hoje já estão beirando os 20 anos (e se não mais velhos).

De certo modo, esse texto se torna até um pouco irônico se pararmos para pensar que estou avaliando um livro que, em grande (e digo grande) resumo, é apenas sobre avaliar outras coisas. Redundante, né?

Em sua essência, o livro imita o podcast homônimo do próprio John, lançado nas principais plataformas de streaming em 2018. Entretanto, vemos um autor mais maduro e melancólico, mas não menos dinâmico, visto que o livro foi escrito do ponto de vista de um homem adulto vivendo sua primeira grande pandemia global — a do coronavírus, no início de 2020.

Em “Antropoceno: Notas Sobre a Vida na Terra”, vemos todos os tópicos abordados no podcast — que vão do tamanho real de um Velociraptor até a origem machista do jogo Monopoly — retrabalhados de forma sensível e reflexiva, que te deixam questionando a origem de tudo o que te rodeia e o impacto que tudo isso teve em sua vida. Afinal, como ele mesmo diz, precisamos prestar atenção no que prestamos atenção.

Dessa forma, John Green vai se abrindo cada vez mais para os leitores, mostrando de forma carismática e amigável alguns cantos de sua vida que até então poucos conheciam. Inclusive, esses pequenos ensaios sobre seu cotidiano e sua história trazem uma nova luz para aqueles que conhecem bem cada obra do autor.

Folheando as páginas de “Antropoceno”, nos vemos percebendo pequenas características de John Green em seus personagens e vice-versa. Por exemplo, no capítulo “Diet Dr Pepper”, eles nos puxa para a sua adolescência, dizendo que nessa idade ele fumava de maneira compulsiva. Entretanto, o que chama atenção é a passagem seguinte: “O prazer de fumar, para mim, não tinha a ver com a onda, e sim com a surpresa de ceder a uma vontade física não saudável”. Mais alguém lembrou de Augustus Waters de “A Culpa é das Estrelas” e sua metáfora sobre cigarros?

Nas páginas, o autor também faz questão de nos lembrar que a vida é sobre ser, sobre experienciar e aproveitar cada aspecto — mesmo que minúsculo — que nos rodeia. Nós somos aquela sensação estranha de tomar um refrigerante zero açúcar pela primeira vez, somos o nosso medo de multidões (e sua irrelevância quando se trata de shows), somos o que escrevemos no bloco de notas do celular, somos nossos passeios de bicicleta com os amigos. Enfim, somos a Terra e todas as suas inconsistências.

Por isso, afirmo com certeza que “Antropoceno” é um livro essencial para os amantes das obras de John Green, os apaixonados pela vida, os que se sentem sozinhos, os que, assim como todos nós lendo isso, são humanos vivendo uma vida extraordinariamente comum na Terra.

Então, em homenagem ao John Green e seu jeito peculiar de avaliar cada aspecto de sua experiência no planeta em que habitamos, nos dando um pouquinho mais de vontade de seguir em frente e dizer “Que benção ser a Terra amando a Terra”, eu dou para “Antropoceno: Notas sobre a Vida na Terra” cinco estrelas.